Além do Vício: Falta de estrutura e preconceito dificultam políticas de redução de danos na Bahia
10 de Agosto de 2026 -Redação Cabula agora![Além do Vício: Falta de estrutura e preconceito dificultam políticas de redução de danos na Bahia [Além do Vício: Falta de estrutura e preconceito dificultam políticas de redução de danos na Bahia]](https://mail.cabulaagora.com.br/fotos/ba_noticias/238806/IMAGEM_NOTICIA_1.jpg)
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Enquanto a política de enfrentamento às drogas costuma concentrar investimentos e estratégias na segurança pública, o atendimento aos usuários de substâncias ainda enfrenta limitações na rede de saúde da Bahia. Mesmo 25 anos após a implementação da Lei Antimanicomial, a falta de estrutura e o preconceito contra a redução de danos continuam comprometendo o acesso ao cuidado.
A discussão integra a série especial “Além do Vício”, que analisa os impactos das políticas sobre drogas no estado a partir de três perspectivas: segurança pública e enfrentamento ao crime organizado, saúde pública orientada pela redução de danos e expansão das comunidades terapêuticas.
Para aprofundar o debate sobre a assistência oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a segunda reportagem da série ouviu o psiquiatra Antônio Nery Filho, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
A trajetória do médico nessa área começou em 1980, após uma experiência profissional no antigo Manicômio Judiciário da Bahia, atualmente denominado Casa de Custódia e Tratamento. No local, Nery passou a questionar a forma como pessoas que consumiam substâncias eram classificadas e encaminhadas para avaliações psiquiátricas.
Segundo o professor, alguns indivíduos eram tratados como dependentes químicos ou traficantes apenas em razão de um consumo eventual, mesmo sem demonstrarem sinais de transtornos mentais. Para ele, essa prática contribuía para aproximar usuários de drogas de pessoas submetidas à internação por adoecimento psíquico e envolvimento em delitos.
Nery também afirma que instituições como o antigo Manicômio Judiciário foram historicamente marcadas mais pela exclusão e pelo estigma do que por uma política efetiva de cuidado.
Após realizar um estágio no Centro Médico Marmottan, em Paris, a convite do professor Claude Olievenstein, um dos pioneiros no tratamento da dependência química, o psiquiatra retornou a Salvador com o objetivo de compreender a realidade brasileira.
A experiência contribuiu para a criação, em 1985, do Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas (Cetad), como atividade de extensão da Faculdade de Medicina da Ufba. Quatro décadas depois, Antônio Nery mantém a avaliação de que o uso problemático de substâncias deve ser enfrentado como uma questão de cuidado, e não como uma guerra.
Na visão do especialista, as motivações para o consumo podem estar relacionadas a diferentes fatores, incluindo saúde, vulnerabilidade social, contexto cultural ou lazer. Entretanto, as políticas públicas frequentemente tratam as substâncias ilícitas como um inimigo que precisa ser eliminado.
Esse modelo, segundo o professor, concentra esforços no combate aos produtos e deixa em segundo plano as pessoas que enfrentam sofrimento físico, psíquico ou social. Nery também critica os impactos da política repressiva sobre jovens negros, que representam uma parcela significativa das pessoas encarceradas por crimes relacionados às drogas.
Da prática cultural à economia do tráfico
O psiquiatra observa que o consumo de substâncias psicoativas está presente em diferentes períodos da história humana. A mudança mais profunda, em sua avaliação, aconteceu quando determinadas substâncias deixaram de ocupar apenas um espaço cultural e passaram a movimentar uma economia ilegal.
Com a criminalização, o tráfico se consolidou como uma atividade de alcance global, impulsionando a formação de organizações que disputam territórios e utilizam a violência para proteger mercados.
Para Nery, essa transformação é fundamental para compreender os efeitos da chamada guerra às drogas. Práticas anteriormente inseridas na cultura e na história de diferentes povos passaram a integrar uma estrutura econômica marcada pela corrupção, exclusão e violência.
Os reflexos de uma sociedade medicalizada
Ao analisar os impactos das políticas de repressão, Antônio Nery chama atenção para a concentração do debate nas substâncias consideradas ilegais. Segundo ele, setores como a imprensa, a medicina, a psicologia, a política e a segurança pública frequentemente apresentam essas drogas como responsáveis pelos principais problemas sociais.
Essa abordagem, no entanto, deixaria em segundo plano os danos associados ao consumo de produtos legalizados, como álcool, tabaco e medicamentos. Essas substâncias são produzidas e comercializadas por grandes indústrias e também estão relacionadas a graves consequências para a saúde pública.
O professor define a sociedade contemporânea como profundamente medicalizada e dependente de diferentes substâncias químicas. Para ele, restringir a discussão às drogas ilícitas impede uma análise mais ampla sobre os hábitos de consumo e seus impactos.
Nesse contexto, uma política de saúde baseada na redução de danos busca reconhecer a realidade de cada usuário e diminuir os riscos relacionados ao consumo, sem exigir necessariamente a abstinência como condição inicial para o atendimento.
A ausência de estrutura adequada no SUS e o estigma que ainda envolve essa abordagem, contudo, dificultam a ampliação dos serviços. O desafio passa pela construção de uma política capaz de substituir a lógica da exclusão por ações de acolhimento, prevenção, assistência e cuidado continuado.
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